A marola mundial e os surfistas brasileiros

por Vitor Lopes

A  crise financeira  (marola, na definição de nosso presidente) originada nos EUA pegou o mundo em cheio.  Tendo o Estado como conivente, posto que assistiu a tudo como mero espectador, uma enorme pirâmide se ergueu com as hipotecas de casas supervalorizadas. A ideologia neoliberal predominante naquele país,  impedia que se falasse em alguma regulamentação, afinal a “exuberância irracional” dos mercados, ou mais propriamente, a ganância de investidores, ávidos por ganhos elevados de capital, era a responsável pelo surto de crescimento americano. Isso mostra que a ideologização, que atende a interesses econômicos escusos, traz prejuízos a avaliação mais consistente e isenta dos fatos, mais ainda, leva à leniência e à irresponsabilidade das autoridades.

As origens da crise, contudo, já foram muito bem explicitadas por diversos economistas e hoje o que  está na ordem do dia são as repercussões na economia brasileira. O Brasil cresceu 5,1% em 2008, crescimento expressivo, e se não fosse a ‘marola’ seria maior ainda (estima-se 6,5%). Contudo, no quarto trimestre de 2008 o tombo foi grande, pois a economia apresentou um declínio de -3,6%, comparado ao trimestre anterior. A partir daí, as previsões para 2009 passaram a ser nebulosas, uma crise de confiança se instala e todos prevêem o pior. Num contexto de expectativas negativas, a tendência é que empresários parem de investir e consumidores parem de consumir e então a economia anda para trás.

Felizmente o contexto internacional adverso (ou, podemos dizer, uma marola turbinada), pegou os nossos surfistas mais bem preparados e com condições de reagir. Primeiro que nosso sistema financeiro é sadio e não seremos contaminados por essa via, nossas reservas internacionais estão em históricos US$ 200 bilhões, a nossa relação dívida pública/PIB é relativamente baixa, nossa inflação está contida e o mercado interno fortalecido com os aumentos reais do salário mínimo e com a expansão dos programas sociais. Os canais de transmissão da crise para o Brasil são dois: a) a escassez de crédito internacional, o que pode implicar em redução dos investimentos de empresas brasileiras ou multinacionais sediadas no Brasil que tinham acesso a crédito externo; b) A queda  da demanda internacional por nossos produtos pode levar a uma contração da produção interna para exportação, gerando redução do emprego e da renda.

Nesse contexto, cabe ao Estado, para longe do discurso ideológico neoliberal, cumprir seu papel anti-cíclico, evitando que esses canais transmissores propagem a recessão no país. O governo deve buscar aquecer a economia através de uma política fiscal expansionista (aumento do gasto e redução de impostos) e de uma política monetária mais adequada. Assim sendo, deverá ampliar o crédito direcionado (crédito concedido por bancos oficiais), reduzir seletivamente a tributação, efetivar seus investimentos  em infra-estrutura e reduzir mais rapidamente a taxa de juros. Desta forma, estará reanimando a economia e a confiança de investidores e consumidores, contribuindo para uma mais rápida recuperação econômica.


Economista, mestre em economia pela UFBA e professor da UNEB e UCSAL.



 
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