Um novo padrão de desenvolvimento é possível

Vitor Lopes

Com os sinais de recuperação da economia mundial, a linha de pensamento desenvolvimentista deverá se preparar para uma nova ofensiva. Conservadores dos quatro cantos, defensores do status quo, supostamente embasados numa  ciência econômica exata, e demais simpatizantes sem causa, ou melhor, sem conteúdo, estarão a postos para defender a lógica rentista do atual modelo.  Redução de gastos públicos, geração de superávit primário e elevação dos juros garantem alta rentabilidade ao setor financeiro. É a única forma de conseguirmos manter a estabilidade, dirão alguns. Será? Em economia, como uma ciência social, sempre existe mais de um caminho. Este é um momento único para se esquadrinhar novos ângulos, pensar alternativas, teorizar, abstrair, é momento de inquietação intelectual e, ao mesmo tempo,  de organização e pressão social.

A tradição marxista coloca que as pressões da base econômica sobre a superestrutura (instituições, arcabouço jurídico e ideológico) implicam em transformações crescentes, culminando em rupturas radicais como a  revolução social. Contudo, uma leitura menos ortodoxa desta assertiva nos diz  que  as pressões da base econômica podem também provocar mudanças não revolucionárias (ou reformistas). Para isso é importante a atuação de intelectuais orgânicos que possam estar formulando proposições e ganhando espaço no debate teórico-conceitual. A introdução de um modelo social-democrata do pós-guerra não deixou de representar essa combinação de forças, dando lugar a uma nova configuração do estado, formatada para atender a nova correlação de forças (ou do novo bloco de poder, diriam alguns).  

Desta forma, seria importante que os setores mais organizados aproveitassem a oportunidade, de franco questionamento do modelo neoliberal, para fortalecerem suas posições por uma sociedade  diferente. Não resta dúvidas que controlada a turbulência  e retomada a atividade econômica global, novamente os adeptos da ortodoxia  do mercado reivindicarão a hegemonia na análise da realidade e consequentemente maior influência na condução das políticas. É como se nada tivesse acontecido, como se nunca houvesse crise, ou até mesmo que a crise tenha sido causada pela falta de rigor na aplicação dos princípios da livre concorrência. Por isso, mais que diagnósticos da crise, é preciso proposições de novos padrões de desenvolvimento econômico. Afinal de contas, parafraseando um velho economista do século XIX, não basta analisar a sociedade, é preciso transformá-la. E quem pode desencadear transformações são os descontentes ou insatisfeitos, atuando na base social, articulados com os analistas críticos engajados.

Se o comunismo ruiu, a social-democracia  esgotou-se e o neoliberalismo fracassou, o que teremos no futuro? A humanidade parece ter afastado as soluções mais radicais, portanto restar-nos-ia um neoliberalismo disfarçado ou uma social-democracia reformada. Talvez esta última seja mais interessante, ou talvez outro sistema possa brotar das reflexões e das ações. Um sistema com ampla participação social, com fortalecimento dos colegiados, das instituições com legitimidade, com mais impessoalidade na gestão. Um estado forte, regulador, presente na economia, mas transparente, responsável, conciliador, sem ser permissivo, perdulário ou corrupto. Um estado que busque disciplinar as atividades econômicas sem ser cerceador das liberdades individuais.

A oportunidade é ímpar para se propor caminhos que contemplem os legítimos interesses sociais e que, para além da utopia comunista, sejam viáveis economicamente. Uma macroeconomia que não esteja subordinada unicamente aos interesses do mercado financeiro, que promova o crescimento mais que incorpore elementos essenciais das relações humanas e da ecologia. Nesse bojo é preciso rediscutir  o papel das instituições sociais, do terceiro setor, das redes sociais, do cooperativismo, do movimento ambientalista, etc, etc., etc. A hegemonia do mercado provou ser ineficaz para promover a estabilidade econômica e muito mais ineficaz  ainda para estabelecer a harmonia social. Enfim, um novo padrão de desenvolvimento é possível, parece estar faltando ousadia - na reflexão e na ação -, ou será que este articulista está viajando na maionese?

 


  Vitor Lopes é Economista, mestre em economia pela UFBA e professor da UNEB e UCSAL.


 
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