Economia Brasileira: Bons indicadores e oportunidades

Vitor Lopes

Segundo projeções do Banco Central, o déficit em conta corrente para este ano ficará em torno de R$ 15 bilhões, ante a US$ 28 bilhões registrados o ano passado. Por seu turno, a política monetária deve ainda comportar uma queda de 0,5 ponto percentual na taxa básica de juros, deixando a Selic em 8,75% ao ano, de acordo com as principais consultorias do mercado.  Pesquisa recente da Febraban evidencia uma expectativa mais otimista na expansão do crédito quando revela que a carteira total  crescerá 17,1% ante a 14,2% previsto anteriormente. Atualmente o volume de crédito em relação ao PIB está no patamar de 43%. No campo da economia real, levantamento do BNDES confirma boas perspectivas de retomada dos investimentos, enquanto que o desemprego registra queda em maio, alcançando 8,8% da População Economicamente Ativa (PEA). São indicadores que denotam uma melhoria das condições macroeconômicas no Brasil, reforçando a tese de que o país  sairá mais rápido da crise.

É quase consenso internacional que o líder latino-americano terá papel destacado no pós-crise, já que apresenta condições macroeconômicas sólidas, uma estrutura produtiva diversificada, um grande mercado consumidor e enorme disponibilidade de recursos naturais. Junte-se a isso a qualidade da diplomacia brasileira, que com sua habilidade e visão estratégica vem dando reconhecimento ao país, capacitando-o para disputar ativamente o papel de protagonista internacional.

No lado financeiro também podemos dar exemplos, já que temos um bom modelo de regulação financeira, com instituições públicas sólidas e saudáveis (como Banco de Brasil, BNDES e Caixa Econômica Federal) e um nível de atuação consistente das autoridades monetárias quanto à supervisão da capacidade de  alavancagem bancária  e risco sistêmico. Por vários motivos não embarcamos no engodo da desregulamentação desenfreada e na crença dogmática no livre mercado, a despeito da grita de importantes setores liberalizantes.

No campo da geração de energia e tecnologia limpa podemos exercer papel de destaque internacional, já que temos grande potencial de recursos naturais e a consciência ecológica da população vem crescendo, a despeito de ainda termos uma grande batalha a enfrentar contra a exploração predatória e o estabelecimento de um instrumento de regulação adequado no campo ambiental. 

Com as novas condições internas e externas temos a oportunidade de romper com um modelo que privilegiou o capital rentista e passarmos a priorizar um ‘modelo produtivista’ – e aí não se restringe à visão clássica de indústria mais sim na produção em geral incluindo a produção de serviços. É evidente que o capital financeiro não perderá a hegemonia de uma hora para outra, mais pode ser um processo de resgate do lado real da economia, com maior geração de emprego e renda e um novo estatuo de valorização da força de trabalho (melhores salários, formalização do emprego, menor precarização, etc). Isto sim iria contribuir para uma mudança estrutural da distribuição de renda no Brasil. A experiência histórica mostra que quando um país desenvolve seu lado produtivo há maior probabilidade dos ganhos obtidos serem incorporados à força de trabalho, diferentemente quando prevalece a lógica rentista. Neste sentido, é importante louvar o recente “pacote” do governo federal para o setor de bens de capital, que prevê facilitação do crédito, redução da taxa de juros e talvez alguma desoneração fiscal. Este setor, muito importante para a economia do país, foi bastante sacrificado com abertura econômica, desde o tempo de Collor de Melo e seu resgate é fundamental para o fortalecimento da indústria nacional. Nesta linha, muitas medidas podem ser implementadas para o fortalecimento da economia nacional, mas é necessária uma obstinação do governo, calcada na convicção de que ele pode ser um agente indutor ativo.

Temos um longo caminho a trilhar. Num ambiente de baixa taxa de juros, estabilidade monetária e balanço de pagamento equilibrado, as oportunidades de lucro estimulam o apetite capitalista para o investimento na produção, cabendo o governo direcionar essa ‘selvageria capitalista’ para alvos que maximizem os  impactos  econômicos e sociais (estamos falando nos marcos do modo de produção capitalista). Portanto, é hora de um keynesianismo renovado, que retome a intervenção planejada do estado na economia (o plano estratégico e as políticas setoriais são importantes nesse contexto). No campo político, o pragmatismo – tão importante para fazer as coisas acontecerem - deve ceder lugar a uma atuação menos imediatista, que busque consolidar as condições para  um novo ciclo virtuoso de crescimento da produção, do emprego e da renda, com uma inserção internacional mais autônoma e participativa.

 

  Vitor Lopes é Economista, mestre em economia pela UFBA e professor da UNEB e UCSAL.



 
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